Evangelho Maltrapilho

Muitos cristãos vivem como se fossem apenas a sua disciplina pessoal e a sua autonegação que deverão moldar o perfeito eu. A ênfase é no que eu estou fazendo em vez de no que Deus está fazendo. Nesse processo curioso, Deus é um espectador  velhinho e benigno que está ali para torcer quando compareço para minha meditação matinal. Nossos olhos não estão fitos em Deus. No fundo somos pelagianos praticantes. Cremos que somos capazes de nos erguermos do chão puxando nossos próprios cadarços – que somos, de fato, capazes de fazê-lo sozinhos.

Mais cedo ou mais tarde somos confrontados com a dolorosa verdade da nossa inadequação e da nossa insuficiência. Nossa segurança é esmagada e nossos cadarços, cortados. Uma vez que o fervor passa, a fraqueza e a infidelidade aparecem. Descobrimos nossa incapacidade de acrescentar uma polegada que seja a nossa estatura espiritual. Começa então um longo inverno de descontentamento que, eventualmente, floresce em depressão, pessimismo e um desespero sutil: sutil porque permanece não diagnosticado e não percebido, e, portanto, não confrontado. Ele assume a forma de tédio e trabalho forçado. Somos esmagados pela normalidade da vida, pelas tarefas diárias executadas à exaustão.

Secretamente admitimos que o chamado de Jesus é exigente demais, que a entrega ao Espírito Santo está além do nosso alcance. Passamos a agir como todo mundo. A vida assume uma qualidade vazia e desprovida de contentamento.

Porque tenho medo de dançar, eu que amo a música e o ritmo e a graça e a canção e o riso? Porque tenho medo de viver, eu que amo a vida e a beleza da carne e as cores vidas da terra e o céu e o mar? Porque tenho medo de amar, eu que amo o amor?
(Eugene O’Neill, em O Grande Deus Brown)

Algo está muito errado.

Nossa afobação por tentar consertar a nós mesmos ao mesmo tempo em que escondemos nossa mesquinharia e chafurdamos na culpa são repugnantes para Deus e uma negação aberta do evangelho da graça.

Visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: o justo viverá pela fé.
(Romanos 1.17)

“Lutero repentinamente chegou à percepção de que a justiça de Deus da qual Paulo falava nessa passagem não era a justiça pela qual Deus era justo em si mesmo (queria uma forma passiva de justiça), mas a justiça pela qual, por causa de Jesus Cristo, Deus tornou justos pecadores (isto é, justiça ativa) através do perdão dos pecados na justificação. Quando descobriu isso, Lutero afirmou que os próprios portões do Paraíso haviam-se aberto para ele.” – Jaroslav Pelikan

O reino de Deus é para um elenco numero de pessoas, os mais rústicos e menos exigentes, que compreendem que são pecadores porque já experimentaram o efeito nauseante da luta moral. São esses os pecadores-convidados  chamados por Jesus para se aproximarem com Ele ao redor da mesa de banquete. Essa história (Mateus 9.9-13) permanece perturbadora para aqueles que não compreendem que homens e mulheres que são verdadeiramente preenchidos com a luz são aqueles que fitaram profundamente as trevas da sua existência imperfeita.

A igreja não é um museu para santos, mas um hospital para pecadores.
(Morton Kelsey)

“A graça reserva aceitação completa, pueril e satisfeita da nossa necessidade, uma alegria na dependência total. O homem bom sente pesar pelos pecados que fizeram com que sua necessidade aumentasse, mas não se sente inteiramente pesaroso pela nova necessidade que eles produziram.” – C. S. Lewis, em Os Quatro Amores

p.9-10, 12

Quando sou honesto, admito que sou um amontoado de paradoxos. Creio e duvido, tenho esperança e sinto-me desencorajado, amo e odeio, sinto-me mal quando me sinto bem, sinto-me culpado por não me sentir culpado. Sou confiante e desconfiado. Honesto e ainda assim insincero. Aristóteles diz que sou um animal racional; eu diria que sou um anjo com um incrível potencial para a imoralidade.

Viver pela graça significa reconhecer toda história da minha vida, o lado bom e o ruim. Ao admitir o meu lado escuro, aprendo quem sou e o que a graça de Deus significa.

Um santo não é alguém bom, mas alguém que experimenta a bondade de Deus.
(Thomas Merton)

Não há coisa alguma que qualquer um de nós possa fazer para herdar o Reino. Devemos simplesmente recebê-lo como crianças. As crianças são nosso modelo porque não têm qualquer pretensão ao céu. Se estão mais próximas de Deus é porque são incompetentes, não porque são inocentes. Se recebem alguma coisa, tem de ser de presente.

A fé diz respeito ao relacionamento da pessoa com Deus, sua confiança em Deus e não se ela crê na existência de Deis. A fé como crença é uma questão da mente, e pode nos deixar inalterado; a fé como confiança é uma questão do coração, e, intrinsecamente, traz mudança.

Você é aceito. Você é aceito, aceito pelo que é maior que você, o nome o qual você não conhece. Não pergunte pelo nome agora; talvez você descubra mais tarde. Não tente fazer coisa alguma agora; talvez mais tarde você faça bastante. Não busque nada, não realiza nada, não planeje nada. Simplesmente aceite o fato de que você é aceito.
(Paul Tillich, em The Shaking of The Foundations)

Meu encontro com Cristo não me transfigurou num anjo. Porque   a justificação pela graça significa que meu relacionamento com Deus foi consertado, não que me tornei o equivalente a um paciente sedado em cima de uma mesa.

p.13-16
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